O caos e a beleza dos Yo La Tengo

Mar 05, 2013 Sem Comentários by

Foi na passada sexta-feira que os norte-americanos Yo La Tengo pisaram o mui nobre palco da Aula Magna. O concerto, que arrancou a tour europeia de apresentação de Fade, o 13º disco de originais do grupo (crítica aqui), trouxe a Lisboa duas horas e meia repletas de algumas das melhores canções que o Alternative Rock pariu.

Passavam já cerca de 20 minutos das 9 quando o trio se decidiu a entrar no palco, que se encontrava frugalmente decorado por três árvores de cartão, em clara referência à capa de Fade. A abertura fez-se com Ohm, seguida de Two Trains, numa primeira parte em modo acústico e que estabeleceu um ambiente bem calmo e “folky”, preenchido primordialmente por versões despidas de canções de Fade.

This work is licensed under a Agencia Porto Company@Creative Commons License (34)

Pelo meio, tivemos direito a dois grandes momentos: Gentle Hour, uma cover dos Snapper inserida na setlist à última da hora por Ira Kaplan num episódio caricato, e Tom Courtenay, um dos grandes pontos altos de Electr-O-Pura (1995), e que encerrou o segmento acústico debaixo de uma exaltada ovação por parte da audiência.

Após o intervalo seguiu-se então o concerto a “sério”, com o ataque a ser iniciado com Nothing to Hide. Bem eléctrica e enraivecida, fruto da ira de Kaplan (perdoem-me o mau trocadilho) pelo técnico das luzes, esta faixa serviu também para pôr em evidência o abafar dos vocais perante a implacabilidade da distorção.

Seguiu-se Before We Run, que abriu caminho para a primeira grande blitzkrieg aos ouvidos dos presentes, às mãos de Sudden Organ. Fazendo justiça ao título da canção, Kaplan arrancou dos teclados uma autêntica orgia de decibéis que fez as delícias dos megalómanos mais insanos e amantes do barulho.

This work is licensed under a Agencia Porto Company@Creative Commons License (14)

Depois tivemos o regresso a Fade, com a singela Is That Enough e a “repetente” Ohm (aqui já mais fiel ao original, contemplada com o loop metronómico da drum machine) a serem apenas intercaladas pela deliciosa cover de Little Honda, dos The Beach Boys.

Foi então que chegou o melhor momento da noite; a fechar o corpo principal do concerto, Pass the Hatchet, I Think I’m Goodkind trouxe à Aula Magna 15 minutos verdadeiramente orgásmicos, com James McNew e Georgia Hubley a manterem uma secção rítmica incrivelmente consistente enquanto Ira Kaplan, vestindo o papel de deus da guitarra Indie, causou o caos e a destruição com camadas avassaladoras de distorção e feedback.

Seguiu-se a consumação do cliché Rock por excelência, o encore, que no caso dos Yo La Tengo serviu para reafirmar (como se fosse necessário fazer tal coisa na cabeça de nós, fiéis convictos) a capacidade que o grupo tem de tomar como seu qualquer catálogo alheio sem cair na cópia rasca. Can’t Seem to Make You Mine (dos The Seeds, do malogrado Sky Saxon), Frenzy (dos The Fugs, escolhida pelo público em detrimento dos berros por The Smiths) e A Message to Pretty (dos Love), complementadas por Big Day Coming (única original dos YLT no encore), marcaram o regresso a tons mais acústicos, belos e enternecedores.

This work is licensed under a Agencia Porto Company@Creative Commons License (9)

Após nova saída de palco o trio regressou para colocar um ponto final na noite, com a bucólica Griselda (dos The Holy Modal Rounders) a fazer as vezes de canção dos créditos. Ainda se esperou por Sugarcube, o “hit single” do trio, mas não se pode dizer que tenha sido necessária; afinal de contas, concertos em modo best-of são para outras paragens. Para sítios intimistas, como a Aula Magna, e perante uma plateia muito bem composta pelos fãs do grupo, o que se pede é que os Yo La Tengo contem a sua história. E na passada sexta-feira, durante duas horas e meia, foi isso mesmo que o Ira Kaplan, James McNew e Georgia Hubley fizeram.

Fotos: Vitor Barros

*Este artigo foi escrito, por opção do autor, segundo as normas do Acordo Ortográfico de 1945

Crítica, Destaques, Música

Sobre o autor

Milita no EF desde Agosto de 2011, tem a mania que é crítico de música nas interwébes e aproveita todas as oportunidades que surgem para falar de si próprio na terceira pessoa. Frequenta a licenciatura de Ciência Política e Relações Internacionais na FCSH-UNL. É de Cascais, não gosta do novo acordo ortográfico e não sabe bem como terminar pequenas bios. Pois.
Sem comentários a “O caos e a beleza dos Yo La Tengo”

Deixe um comentário