Miguel Araújo: matérias do coração no Tivoli

Abr 18, 2013 Sem Comentários by

Os Maridos das Outras deu a conhecer melhor o génio por detrás das maravilhosas letras d’Os Azeitonas, mas não só: mostrou ao mundo a voz melodiosa de Miguel Araújo Jorge, que entretanto deixou cair o último nome. A noite passada foi de espetáculo no Teatro Tivoli, em Lisboa, num registo intimista ao estilo de Cinco Dias e Meio, que ofereceu também muita energia, sorrisos e a lágrima ao canto do olho.

O cenário quente e sombreado tornou o pequeno e velho Tivoli ainda mais acolhedor. Eram poucos os lugares que faltavam preencher numa plateia recheada de amigos – os Deolinda, Miguel Ângelo e João Só eram alguns deles – e expectante em relação a um Miguel Araújo pós-primeiro álbum e pós-desvio do septo nasal. Uma certeira consolidação do seu talento para aqueles que já o conheciam antes de ser fixe.

Sete Passos (Carolina), Canção do Ciclo Preparatório e a belíssima Matérias do Coração abrem uma noite mágica. É o nosso Miguel, mas não propriamente a solo: acompanhado por uma grande banda, que tornou o concerto mais divertido, ritmado e diferente do ‘multiinstrumentalismo’ do álbum. Aquele xilofone melódico, aliado aos efeitos suaves da bateria e aos poderosos instrumentos de sopro, dão toda uma outra beleza ao seu repertório, para além do som poderoso do violoncelo de Jaroslav Mikos.

Entre as canções do primeiro álbum, Capitão Fantástico, a popular Rosa da Minha Rua e a que abre oficialmente a silly season, Fizz Limão, bem ao estilo de um dia caloroso como o de ontem, fazem as delícias do público. Miguel Araújo oferece também aos presentes duas músicas inéditas, ao estilo romântico e engraçado a que já nos habituou. Cartório é um “vem ser minha mulher e seja o que deus quiser“, enquanto Jardim é uma viagem maravilhosa à descoberta do mundo. “O meu filho também ainda não sabe andar, sai ao pai“, diz ele, entre confissões sobre o desejo humano de independência e de enfrentar o desconhecido, que esta canção espelha no olhar de uma criança de um ano.

Samuel Úria e António Zambujo, também eles verdadeiros arquétipos da perfeição, são os convidados da noite. Com o primeiro canta Império, num momento que aquece verdadeiramente o concerto e traz já a lagrimita, tanta é a emoção. Com uma letra e uma dupla tão geniais, como não? Já Zambujo oferece ao dueto a sua Lambreta, que interrompe de forma séria mas brincalhona perante os risos da plateia. “Estão a rir-se de quê?“.

A “voltinha” antecede um dos grandes momentos da noite. Juntam-se três grandes artistas e dá nisto: um verdadeiro Triunvirato, como o tema de Úria. É o expoente máximo desta amizade musicada, juntando as três vozes numa só canção, em homenagem a outros grandes compositores. Eles cantam, encantam e entretêm com o seu bom humor. Miguel reflete bem a enormidade deste trio: “nem tenho que dizer nada no meio destes dois caramelos“. António Zambujo, por seu lado, diz sentir-se triste por ser convidado e ter de passar todo o espetáculo nos bastidores: “não temos oportunidade de assistir ao concerto de um dos nossos artistas preferidos!“.

A energia oferecida pela banda, por um coro essencialmente feminino que a certa altura surge em palco e pelos arranjos rebuscados das músicas tornou o espectáculo de Miguel Araújo uma mistura entre o pseudo acústico e calmo registo familiar e o estilo popular de bailarico, circense e diversão – no bom sentido! -, um pouco à semelhança do registo d’Os Azeitonas. Daí que também estes merecessem a invocação, ainda que numa música não interpretada por ele (embora a tenha escrito) e de uma fase mais serena e menos festiva: a linda Cantiga de Embalar Jovens Adultos. Roubada ou não ao Pinóquio, mostra um Miguel emocionado, apenas de microfone na mão, a cantar sobre as “dores de crescimento da alma“.

‘Rouba’ também a Ana Moura a canção que lhe escreveu, numa versão popular bastante distinta da original: E Tu Gostavas de Mim. É mais difícil ser-se correspondido no amor do que o homem ir à lua, escreve ele: “dava-se outro caso assim e tu gostavas de mim“. Ele é fácil de gostar, achamos nós. Mas não é a única que traz para o seu concerto: a sua versão de Vocês Sabem Lá refresca também a sala do Tivoli, a par das suas Autopsicodiagnose e Desdita – a primeira música que se lembra de ter completado. É curioso como, sendo a sua primeira, tem já tanto de seu.

É pena que o uníssono das vozes apenas se concretize em Os Maridos das Outras, no pré-encore do espetáculo. O single que lhe trouxe o reconhecimento merecido é entoado pelos presentes, que em simultâneo se observam a mexer as cabeças ao som da música e da crítica às mulheres, e não aos homens, que lhe é intrínseca. Tal como este espírito trocista e irónico bem característico da música de Miguel Araújo. Entre agradecimentos e agradecimentos, é por canções como esta que agradecemos também ao panorama musical português por ter elevado a música do nosso capitão fantástico à sua órbita.

Mas outros momentos de palpitação forte estavam reservados para o encore, com a chamada ao palco de um casal da plateia. Já todos sabíamos o que estava a acontecer e ainda assim o pedido de casamento ali no meio, em frente a tanta gente, não deixou de provocar uma nova lágrima de felicidade. É de facto a palavra que descreve esta noite maravilhosa: felicidade. A fechar o concerto, também a famosa Reader’s Digest transmite toda esta emoção, com o desejo de “mulher fiel, filhos, fado, anel e lua-de-mel em França” que já todos conhecemos bem.

Inesquecível, sem dúvida. Da sua confusão entre o guitarrista ex-roadie e um dos seus ajudantes com a disposição dos elementos em palco à sua confissão de que foi à praia e não conseguiu mergulhar como tanto ansiava. Há ainda tempo para ponderar se os amigos Deolinda não estariam a jogar Snake na plateia, aborrecidos  com as quase duas horas de espectáculo. O copo alto de vinho tinto, a imitar o ídolo Rui Veloso, é também um dos pontos de destaque da noite.

Ele diz que gostava de escrever letras tão boas como as dos seus convidados. Quem escreve coisas como “choro, rio, rezo, rogo em vãs novenas” não pode dizer estas coisas. Pena que as “legendas” do concerto estivessem tão erradas e descoordenadas, sem razão aparente para lá estarem. Mas isso não interessa nada. O nosso Mendes está crescido. Está a construir o seu próprio império, aos poucos. E vem aí um novo álbum. Aguardamos ansiosamente por mais noites como esta.

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Fotografias: Rita Sousa Vieira

Crítica, Destaques, Música

Sobre o autor

Licenciada em Ciências da Comunicação pela FCSH/NOVA. Estudante no Mestrado de Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação no ISCTE-IUL. Apaixonada por livros, cinema, música, teatro e comunicação. Natural de Lisboa. Directora de Comunicação e Relações Externas no Espalha-Factos desde Outubro de 2013 e membro da equipa desde o primeiro dia.
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